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‘A esquerda não tem o monopólio de querer o bem da sociedade’, diz Fábio Barbosa

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Estadão Conteúdos

Depois de assinar a carta de apoio à democracia, na semana passada, o CEO da Natura & Co., Fábio Barbosa, disse ao Estadão que, entre os candidatos que lideram a corrida presidencial, ele prefere uma terceira via: a da senadora Simone Tebet (PMDB). Apesar de a candidata ainda ter poucas chances, segundo as pesquisas, ele acredita que existe uma pequena chance de “virar o jogo”.

O executivo diz que é preciso separar a extrema-direita, conservadora na pauta de costumes e dada à polarização, e uma outra direita, que defende o desenvolvimento da economia de mercado no País. “Eu me incomodo muito com a crítica de que pessoas de direita, no sentido da orientação econômica, não têm sensibilidade (social), o que não é verdade.”

Para além da polarização entre Jair Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva, o executivo defende que um desafio fundamental nas próximas eleições é a renovação do Congresso Nacional, que ele considera de baixa qualidade. “Tem uma juventude muito boa, com novos nomes se propondo a trabalhar na política. Nós precisamos qualificar o Congresso, porque hoje ele tem muito mais poder do que tinha anos atrás”, disse.

Leia, a seguir, os principais trechos da entrevista.

Qual a importância da carta pela democracia?

Nos últimos anos, vimos muitos questionamentos em relação ao sistema eleitoral. Isso é bastante preocupante porque se abre um espaço para que o resultado seja contestado. Questionar o sistema eleitoral abre uma brecha perigosa para que se criem bagunça e tumultos. Por isso foi importante fazer um contraponto (por meio da carta pela democracia). Existem aqueles que acham que o sistema é duvidoso e se manifestam. Mas não havia um manifesto tão grande por parte daqueles que acreditam que o sistema é confiável. Por muito tempo, o empresariado ficou muito quieto em relação às eleições.

O sr. acha que isso ficou para trás?

Quando o tom das críticas ao sistema eleitoral começou a subir, especialmente com a aproximação das eleições, o fato de que não houve nenhum relaxamento nessas críticas acendeu o alerta de que nós tínhamos um problema. Havia iniciativas por parte do empresariado e de economistas para fazer um documento a favor do sistema eleitoral e da democracia. Mas se chegou à conclusão de que assinaríamos aquele do (movimento) 11 de Agosto, que já estava bem estruturado, com pessoas de todas as tendências políticas. Foi importante descaracterizar como um movimento de empresários e mostrar que era um movimento da sociedade.

Como o sr. tem avaliado a reação do presidente Jair Bolsonaro a essa movimentação do empresariado?

O importante para nós, que assinamos o manifesto, é que ele não passasse despercebido. Acho que ele é relevante, e, com isso, é natural ter reações (negativas) por parte daqueles que defendem outro ponto de vista. Alguns empresários tinham medo de assinar o manifesto e parecer que estavam apoiando um determinado candidato, no caso o ex-presidente Lula.

O senhor acha que conseguiu se dissipar essa ideia?

Os candidatos Lula, Ciro Gomes e Simone Tebet se manifestam fortemente a favor do respeito às urnas eletrônicas e ao processo eleitoral. Eu não esperava que (essa impressão) se dissipasse totalmente, mas conseguimos minimizar essa ideia.

Como o sr. tem avaliado os retrocessos em relação à pauta ambiental?

O Brasil está perdendo uma oportunidade enorme de ser uma potência ambiental, mesmo tendo uma matriz energética das mais limpas do mundo. Temos um potencial de geração de créditos de carbono que são demandados no mercado internacional. O Brasil está perdendo duas vezes. Primeiro, pela negação dos problemas ambientais. Segundo, porque a imagem do País fica muito prejudicada, atrapalha as exportações e os investimentos.

A polarização nas eleições está tirando espaço da discussão sobre o crescimento econômico do País?

Eu não estou vendo propostas (efetivas) de nenhum dos dois lados que estão à frente nas pesquisas. Faço parte de um grupo de pessoas que apoiam a candidatura da Simone Tebet, não como uma ideia de terceira via, mas como um nome que tem uma visão sobre o desenvolvimento econômico. Existem outros candidatos que estão buscando colocar as propostas. Devo dizer que o Ciro Gomes também faz suas propostas, eu concordando ou não, mas ele tem.

É possível ainda acreditar que a terceira via decole?

Nossa expectativa é de que a candidatura de Simone Tebet ganhe atração até 15 de agosto, quando efetivamente começa a campanha, para que ela possa apresentar as propostas.

O sr. já teve alguma conversa com Ciro Gomes?

Do grupo de empresários de que eu participo, não tivemos conversa de nenhuma sorte com Ciro Gomes, porque ele trabalha em outra linha. A nossa linha é pela orientação econômica liberal. Eu faço muita crítica ao pessoal da esquerda, dizendo que eles não têm o monopólio de querer o bem da sociedade. Eu, Simone Tebet e outras pessoas também queremos. Apenas entendemos que o caminho para se chegar a isso é um caminho em que você tem o investimento em educação e ciência. Com regras do jogo estáveis, com a busca de um ambiente favorável para que se criem empregos e a sociedade seja protagonista desse crescimento. Eu me incomodo muito com a crítica de que pessoas de direita, no sentido da orientação econômica, não têm sensibilidade, o que não é verdade.

O Brasil está à deriva? Não temos um plano de país?

Nós não temos um plano de país com relação aos investimentos em educação e em ciência, que são portas para se resolver outros problemas, como o de saúde. Acho também que o País não tem um plano para a questão ambiental, em que poderia ser uma potência mundial. Além disso, as empresas estão buscando estabilidade. O que leva as empresas a investir é a confiança de que o amanhã será melhor. Essa instabilidade política, em relação ao que teremos nos próximos anos, é um dos grandes problemas. Sem segurança jurídica, não existe investimento. Precisamos de qualquer candidato que garanta que as regras serão mantidas.

A eleição é uma chance de termos essa estabilidade?

Sim. Mas uma coisa que eu não tenho visto é uma movimentação em torno de novas candidaturas para Câmara e Senado. Tem uma juventude muito boa, com novos nomes se propondo a trabalhar na política. Nós precisamos qualificar o Congresso, porque hoje ele tem muito mais poder do que anos atrás. Uma preocupação é com a pouca renovação que possamos vir a ter no Congresso nestas eleições, como consequência das regras que estabeleceram fundo eleitoral para os partidos. A outra é a falta de representatividade da sociedade no Poder Legislativo. Nós precisamos trazer cabeças mais jovens e mais conectadas com o momento que nós estamos vivendo.

Algumas discussões mais conservadoras pareciam estar superadas. Como o sr. vê o retorno delas à pauta?

No País, o presidente dá o tom. Por exemplo, o tom dado pelo executivo com relação à questão ambiental trouxe à tona discussões que já eram assunto resolvido. E isso inclusive vale para o voto eletrônico. A depender de quem for eleito, alguns desses temas ficarão de fora e outros aparecerão.

Como está sendo a sua chegada à Natura?

Aceitar esse convite para assumir essa posição agora tem a ver com a minha convicção de que o modelo de negócios é vencedor. A Natura é uma referência de boas práticas. Nós somos um ícone nacional em sustentabilidade. Nós estamos neste momento em período de silêncio, então eu vou repetir o que eu disse na época do anúncio: minha ideia é preservar esse modelo com uma visão ampla em relação à questão da sustentabilidade. Dar autonomia, com responsabilidade, às várias unidades do negócio.