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Diretor do BC fala em momento difícil para economia global e 5 anos ‘complicados’

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Estadão Conteúdos

O diretor de Política Monetária do Banco Central, Bruno Serra, afirmou nesta segunda-feira, 30, que o momento atual é difícil para a economia global com uma perspectiva de desaceleração do crescimento em meio à inflação alta e que pode ser necessário uma recessão para o controle de nível de preços. “Não é fácil navegar nesse processo. Os próximos cinco anos serão complicados, com tomadas de decisões difíceis. Mercado precisará navegar sem boia de salvação por um tempo”, afirmou o representante do BC, participante nesta segunda-feira de evento online da Kinea Investimentos.

Apesar disso, o diretor do BC afirmou que os bancos centrais estão focados em trazer a inflação para a meta. “Para nós isso é importante. Com a inflação em dólares a 8%, nada funciona direito. Acredito nessa virada do processo, que vai ser doloroso.”

Em relação à economia chinesa, Serra disse que é necessário “limpar feridas” e o mercado imobiliário precisando desinflar, com crescimento menor. “China que foi grande motor do crescimento global também precisa limpar feridas”, comentou, citando que é momento no mundo de reduzir excessos da pandemia.

Choques de petróleo

O diretor de Política Monetária do Banco Central afirmou ainda que a autoridade monetária combate efeitos secundários do choque de alta de petróleo, mas reconheceu que esses efeitos já são relevantes.

Ele ainda destacou que no próximo encontro do Comitê de Política Monetária (Copom), em junho, o BC está 100% focado na inflação de 2023. “O modelo brasileiro já suaviza bastante efeito de alta de petróleo, combatemos efeitos secundários. O problema é que choques são tão grandes, que efeitos secundários já são relevantes.”

Nos EUA, o diretor do BC avaliou que o aumento dos combustíveis “pega muito” para o norte-americano médio e que é difícil o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA) ignorar esse encarecimento.

Sobre o cenário de combustíveis, Serra ainda comentou que os investimentos foram menores por muitos anos. “Parou de fluir dinheiro para investimentos em combustíveis fósseis por muitos anos”, disse.

Desafio

O diretor de Política Monetária do Banco Central afirmou também que o Fed e o BC brasileiro vivem hoje mesmo desafio de não saber qual nível final de juros será necessário para alcançar a convergência da inflação à meta. “O Fed vive o mesmo desafio do Brasil, não sabemos onde vai precisar colocar os juros”, disse. “Será tentativa e erro, mas direção é certa, vai trazer inflação para baixo”, completou.

Embora seja difícil prever hoje se a inflação norte-americana vai cair para 1,5%, 2% ou 2,5% com a atuação de política monetária no país, Serra destacou que a sociedade dos Estados Unidos cobra uma inflação controlada e que vê sinal claro de que o Fed “está decidido a trazer inflação para 2%”, sua meta.

Para o diretor, os BCs de outros países desenvolvidos irão seguir na mesma direção do Fed. Ele ainda lembrou que o mundo ainda vive a consequência na inflação da pandemia. “Vivemos período atípico desde 2020, chegamos a classificar como anômalo.”

Câmbio

Bruno Serra disse também que a moeda brasileira tem sido um destaque positivo desde a virada do ano, ao contrário de 2020 e 2021, em que o câmbio não cumpriu o papel de suavizar os efeitos do choque de commodities. Segundo ele, em “três ou quatro meses” o choque do câmbio deve ser revertido e a valorização vai começar a bater nos dados de inflação. “Até abril, tivemos melhor início de ano desde a criação do real. Choque da invasão da Ucrânia mascarou um pouco o efeito benigno do câmbio.”

O diretor do BC lembrou que uma série de eventos ocorreu no fim do ano passado em relação ao câmbio: o juro real entrou no campo restritivo em outubro e acabou o overhedge e o endividamento de exportadores ao final de 2021.

Serra também destacou que todos os BCs estão “apanhando” das premissas sobre commodities. “Tem sido desafiador para todos os BCs.” Mas aqui, Serra disse que com o câmbio está fazendo diferença na margem.

Segundo ele, o resto do mundo está sofrendo muito mais. “Europa e países desenvolvidos estão desvalorizando moeda. Resto do mundo ainda terá pico da inflação mais para frente, no Brasil já estará caindo”, disse, no evento da Kinea.