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Dólar sobe 1,47%, para R$ 4,8755, com ‘efeito China’ e desmonte de posições

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Agência Brasil

Após esboçar correr até R$ 4,95 no início da tarde, quando chegou a subir 3% e registrou máxima a R$ 4,9493, o dólar desacelerou o ritmo de ganhos nas últimas três horas de pregão, em sintonia com a diminuição da aversão ao risco no exterior e a virada das bolsas norte-americanas para o campo positivo. No fim da sessão, a moeda apresentava alta menos aguda, de 1,47%, a R$ 4,8755 – maior valor de fechamento desde 22 de março (R$ 4,9152).

Contando com o avanço de 4% na sexta-feira, na volta do feriado de Tiradentes, a moeda norte-americana acumulou valorização de 5,52% nos dois últimos pregões, saltando da casa de R$ 4,60 para perto de R$ 4,90. Depois de intervir na sexta-feira à tarde, com leilão de venda à vista no total de US$ 571 milhões, o Banco Central se manteve afastado nesta segunda-feira. Mesmo com a trajetória ascendente neste fim de abril, a divisa americana ainda acumula desvalorização de 12,56% em 2022.

O principal indutor da alta do dólar por aqui foi o ambiente global de aversão ao risco, que fez investidores abandonarem bolsas e divisas emergentes para se abrigarem na moeda americana e nos Treasuries, cujas taxas caíram em bloco. O rendimento da T-note de 10 anos, principal ativo do mundo, caiu, no momento mais agudo, para a casa de 2,75%.

Ao realinhamento dos preços dos ativos globais à perspectiva de que ajuste monetário mais intenso e forte nos Estados Unidos se somaram nesta segunda-feira preocupações com o impacto de novo surto de covid-19 sobre a economia chinesa. Depois de lockdown em Xangai, o governo decretou medidas restritivas em Pequim.

Há temores de que uma perda de fôlego simultânea das duas principais economias do mundo abale a atividade global. As cotações do petróleo caíram mais de 5%, com o tipo Brent, referência para Petrobras, perto do piso dos US$ 100 o barril. O minério de ferro negociado em Cingapura recuou quase 10%.

O índice DXY – que mede o desempenho do dólar frente a uma cesta de seis divisas fortes – operou em alta firme ao longo do dia, acima da linha de 101,500 pontos. As divisas de países exportadores de commodities e emergentes caíram em bloco, à exceção do peso mexicano. O real, que apresentava o melhor desempenho no ano, foi quem mais sofreu. Desde sexta-feira, analistas notam uma corrida para desmonte de posições vendidas (que ganham com a alta do dólar) no mercado futuro, especialmente por parte de fundos locais, o que tem exacerbado o movimento de alta da divisa no mercado doméstico.

O head da Tesouraria do Travelex Bank, Marcos Weigt, afirma que o mercado dá continuidade nesta segunda ao movimento de “fly to quality” no mercado global iniciado no fim da semana passada. “O real sofre mais que as outras porque era o trade operação preferido de nove entre dez gestores, com commodities e taxas de juros domésticas altas”, afirma Weigt. “A entrada na operação acontece em meses e a saída, em dias. Não tem liquidez para todo mundo sair ao mesmo tempo e acontece isso. O dólar subiu 4% na sexta e chegou a subir 3% hoje.”

Depois de movimentar US$ 19,17 bilhões na sexta-feira, o dólar futuro para maio, mais líquido, apresentava, às 17h05, giro robusto, na casa de US$ 20 bilhões. Além de operações de zeragem para realização de lucros e limitação de perdas (stop loss), players já estariam se movimentando para a rolagem de posições futuras e formação da última Ptax de abril, na sexta-feira, 29. Segundo dados da Renascença DTVM, apenas na sexta-feira os fundos locais reduziram posições vendidas em dólar futuro em 21.815 contratos (US$ 1,09 bilhão). Já os investidores estrangeiros aumentaram as posições compradas em 27.675 contratos (US$ 1,38 bilhão).

Para a economista-chefe da Armor, Andrea Damico, o mercado está “finalmente” incorporando aos preços “a adoção de uma estratégia mais agressiva de política monetária pelo Fed”, na esteira de declarações mais duras do presidente do BC americano, Jerome Powell, em evento do Fundo Monetário Internacional (FMI) na semana passada. Damico ressalta que os juros reais americanos de prazos mais longos, como o de 10 anos, que apresentavam patamar bem negativo, agora estão próximos de zero, o que tem impacto mais relevante em bolsas e ativos de risco.

“O real sentiu o golpe do Fed mais agressivo, sendo uma das moedas de pior performance nos últimos dias. O fato de o real ter a maior apreciação entre divisas emergentes no ano e de ter um mercado cambial líquido podem ter contribuído para essa devolução parcial de ganhos da moeda”, afirma a economista

Enquanto o Fed tende a acelerar o passo, com boa parte do mercado já apostando em alta de 0,75 ponto porcentual da taxa básica americana em junho, após a esperada elevação de 0,50 ponto no encontro do Fed semana que vem, por aqui o Banco Central dá sinais de que deseja realmente encerrar o ciclo de aperto monetário, afastando expectativas de que a taxa Selic se aproxime de 14%. Essa combinação tende a reduzir, ainda que marginalmente em um primeiro momento, o diferencial entre juro interno e externo, que até então tinha sido apontado como um dos propulsores do real.

Para a economista Cristiane Quartaroli, do Banco Ourinvest, o mercado de câmbio continua a refletir nesta segunda a piora do clima institucional no Brasil, cujo gatilho foi o indulto de Bolsonaro ao deputado Daniel Silveira (PTB-FJ), condenado a mais de oito anos de prisão pelo STF. “Além disso, ainda temos o temor de desaceleração econômica na China por conta do novo surto de Covid. Isso penaliza preços de commodities e gera busca de segurança, o que contribui para esse aumento da taxa do câmbio”, diz Quartaroli. “De forma geral, o plano político vai começar a falar cada vez mais alto aqui no Brasil e devemos voltar a ter piora nos preços dos ativos.”

Bolsonaro voltou a espicaçar o Supremo nesta segunda-feira ao participar de evento em Ribeirão Preto, no interior de São Paulo. O presidente disse que o perdão a Silveira, a quem chamou de “inocente”, será cumprido. Mais: Bolsonaro afirmou que poderia descumprir ordem do STF caso a Corte aprove revisão do marco temporal para demarcação de terras indígenas.