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Dólar sobe e fecha a R$ 5,7121 com tom duro do Fed e preocupação fiscal

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O tom duro da ata do Federal Reserve (Fed, o banco central norte-americano) e a cautela diante do temor de piora das contas públicas, em meio à onda de reivindicação de reajuste salarial por servidores públicos federais, não apenas jogaram o dólar para cima como fizeram o real amargar um dos piores desempenhos entre as divisas emergentes na sessão desta quarta-feira, 5, atrás apenas do rublo e da lira turca.

Pela manhã, o mercado até ensaiou um movimento de realização parcial de lucros, após a alta de 2,05% da divisa nos dois primeiros pregões do ano. Em sintonia com o movimento expressivo de queda da moeda americana lá fora, a taxa de câmbio rompeu a linha de R$ 5,65 e desceu até a mínima de R$ 5,6428.

Mesmo antes da divulgação da ata do Fed, contudo, o dólar já ganhava força por aqui, embora ainda se mantivesse em leve queda, na casa de R$ 5,68.

Segundo operadores, após movimentos de ajustes e realização de lucros pela manhã, investidores remontavam posições defensivas, à espera do BC americano e de olho na movimentação do funcionalismo público. Pesou no mercado a notícia de que 150 auditores-fiscais do Trabalho já deixaram postos de chefia ou coordenação, seguindo a toada de servidores da Receita Federal e do Banco Central, que entregaram cargos de chefia. Categorias diversas pressionam por reajustes após o governo reservar espaço de R$ 1,7 bilhão no Orçamento de 2022 contemplar apenas polícias federais.

A pá de cal sobre a moeda brasileira veio com a ata do Fed. O documento informou que dirigentes do BC americano consideram que pode ser necessário “elevar os juros mais cedo e a ritmo mais rápido”. E mais: alguns dirigentes até “consideraram apropriado reduzir o balanço após a alta de juros”. Em resumo, o Fed não vai apenas deixar de injetar dinheiro (com o fim do programa mensal de compra de bônus) como iniciará a alta de juros e estuda começar a enxugar a liquidez do sistema. Embora se pondere que é preciso avaliar os riscos de novas variante do coronavírus, como a Ômicron, a avaliação é de que o crescimento americano seguirá robusto em 2022. A leitura de que a inflação é um fenômeno transitório foi abandonada.

As apostas em alta de juros nos EUA em março ganharam ainda mais força e as taxas dos Treasuries renovaram máximas. o índice DXY – que mede a variação do desempenho do dólar frente a seis moedas fortes – diminuiu rapidamente o ritmo de queda e voltou a trabalhar acima da linha dos 96,100 pontos. A moeda americana também reduziu a baixa em relação à maioria das divisas emergentes e de países exportadores de commodities, com leve alta frente ao peso mexicano, o principal par do real. O dólar subiu mais de 2% em relação a lira turca e ao rublo, que já vinham apanhando mesmo antes da ata do Fed.

Por aqui, a moeda não apenas trocou de sinal como passou a trabalhar acima da linha de R$ 5,70. Com renovação de sucessivas máximas na última hora de pregão, quando atingiu R$ 5,7131, o dólar à vista fechou a R$ 5,7121, em alta de 0,39%. Com isso, a divisa acumula valorização de 2,44% nos três primeiros pregões deste ano.

Para o gestor Sergio Zanini, sócio da Galapagos Capital, está claro que o real apresenta um desempenho pior que a maioria dos emergentes porque “questões idiossincráticas” do Brasil estão “pesando muito” sobre os ativos domésticos. “Existe a dinâmica da curva de juros americana, mas ela é igual para todo mundo. Mesmo em dias em que as moedas emergentes apreciam bastante, o real tem performance pior”, afirma Zanini, destacando que o peso chileno e o peso colombiano, por exemplo, apresentaram um bom desempenho nesta quarta-feira.

Zanini observa que o mercado brasileiro “precifica uma probabilidade alta de deterioração fiscal ainda maior”, diante das pressões cada vez mais elevadas por aumento dos gastos públicos, na esteira da reivindicação de reajuste por diversas categorias do funcionalismo público.

Mesmo com a renda fixa brasileira oferecendo prêmios elevados em relação a outros países emergentes, dado o nível das taxas de juros locais, os investidores não se mostram dispostos a apostar na moeda brasileira. Além das incertezas fiscais e da questão eleitoral, que mantêm os prêmios de risco elevados, a perspectiva de alta de juros nos Estados Unidos desencoraja posições contra o dólar neste momento, observa Zanini.

“O mercado inteiro sabe que os ativos brasileiros estão baratos, mas este não é o momento de se engajar. Talvez haja uma recuperação no terceiro trimestre, quando ficar mais claro a questão da alta de juros nos EUA e da eleição aqui dentro”, diz o gestor da Galapagos, que trabalha com cenário de três altas dos juros nos EUA neste ano, com a primeira elevação já em março.