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Planejamento sucessório familiar: as mulheres estão na conversa?

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Planejamento patrimonial • Sucessão • Família

Planejamento sucessório familiar:
as mulheres da sua família estão na conversa?

O Brasil deve passar pela maior transferência patrimonial da sua história. Mas, em muitas famílias, quem provavelmente vai administrar parte desse patrimônio ainda não participa das decisões sobre ele.

Por Natalia Zucchi • Assessora de Investimentos da Valor

Planejamento sucessório familiar costuma ser tratado como uma conversa para depois. Depois que a empresa crescer mais. Depois que os filhos estiverem prontos. Depois que o patrimônio estiver mais organizado. Depois que a família tiver tempo.

O problema é que a sucessão não espera a família se sentir preparada. Ela acontece. E, nos próximos 20 a 25 anos, o Brasil deve passar pela maior transferência de patrimônio da sua história.

Segundo o Global Wealth Report 2025, da UBS, quase US$ 9 trilhões devem trocar de mãos no país nesse período. O número coloca o Brasil em segundo lugar no ranking mundial de transferência patrimonial esperada, atrás apenas dos Estados Unidos e à frente da China continental.

Se a sua família construiu patrimônio ao longo de décadas, tem uma empresa, imóveis, terras, participações societárias ou uma carteira de investimentos, é provável que faça parte dessa estatística.

A pergunta não é se a transferência patrimonial vai acontecer. A pergunta é se ela vai acontecer com um plano, ou sem um.

A sucessão não acontece apenas entre pais e filhos.
Muitas vezes, o patrimônio passa primeiro entre cônjuges.

Quando uma família fala em sucessão, normalmente imagina a passagem direta do patrimônio de uma geração para outra: dos pais para os filhos, dos fundadores para os herdeiros, dos avós para os netos.

Mas a realidade costuma ser mais complexa. Frequentemente, antes de chegar à geração seguinte, parte relevante do patrimônio passa primeiro entre cônjuges. Isso significa que esposas e companheiras podem assumir a administração do patrimônio familiar por anos, ou até décadas, antes que os filhos tenham participação direta nas decisões.

Esse ponto é especialmente importante porque mulheres tendem a viver mais que homens e, em muitos casos, se casam com parceiros mais velhos. Na prática, isso aumenta a probabilidade de que mães, esposas e viúvas se tornem responsáveis pela continuidade patrimonial da família em algum momento da vida.

A tendência não é apenas brasileira. A McKinsey estima que os ativos investíveis controlados por mulheres nos Estados Unidos devem quase dobrar, chegando a US$ 34 trilhões até 2030. Na Europa e nos Estados Unidos, a participação feminina nos ativos financeiros de varejo, hoje próxima de um terço, deve avançar para algo entre 40% e 45% até o fim da década.

O Brasil também oferece exemplos visíveis desse movimento. Segundo a Forbes 2026, Vicky Sarfati Safra, viúva de Joseph Safra, aparece como a segunda maior fortuna brasileira, atrás apenas de Eduardo Saverin.

Evidentemente, esse caso não reflete a realidade da maior parte das famílias brasileiras. Mas ele ilustra algo que pode acontecer, em proporções diferentes, em milhares de famílias: o patrimônio pode mudar de mãos antes de chegar aos herdeiros que todos imaginavam como sucessores naturais.

A sucessão familiar não começa no inventário. Ela começa nas conversas que a família decide ter, ou evita ter, antes dele.

O problema não é capacidade.
É exclusão da conversa.

Grande parte das mulheres que vão herdar, administrar ou reorganizar o patrimônio familiar no futuro não está despreparada por falta de capacidade. Muitas estão despreparadas porque nunca foram incluídas na conversa.

Uma pesquisa da UBS com mulheres investidoras nos Estados Unidos mostrou que quase três quartos das mulheres que esperam herdar dos pais não se sentem preparadas para essa transição. O levantamento também mostra que 43% delas nunca viram o testamento dos pais, e cerca de um terço não sabe onde os ativos estão, como serão divididos ou se existe um plano para isso.

A lacuna, portanto, vai muito além do conhecimento financeiro. Ela nasce da ausência de diálogo. Muitas mulheres só descobrem como o patrimônio está organizado quando já precisam tomar decisões sobre ele.

Não basta ter um plano de sucessão no papel se as pessoas que vão viver esse plano nunca participaram da conversa.

Esse distanciamento também afeta a relação com quem acompanha o patrimônio. A McKinsey aponta que 70% das viúvas mudam sua relação patrimonial para uma nova instituição financeira no primeiro ano após a morte do cônjuge. Esse dado revela um problema importante: em muitos casos, o assessor, o banco ou o gestor tinha relação com o marido, mas não necessariamente com a família.

Quando a viúva não foi incluída nas reuniões, não conhece a estratégia e não tem vínculo de confiança com quem orienta as decisões, é natural que a relação seja rompida em um dos momentos mais delicados da vida familiar.

Por que essa brecha ainda existe?
Parte da resposta está na cultura patrimonial brasileira.

Para entender por que essa exclusão ainda é comum, é preciso lembrar que a autonomia patrimonial das mulheres brasileiras é uma conquista historicamente recente.

O Código Civil de 1916 classificava as mulheres casadas como relativamente incapazes enquanto subsistisse a sociedade conjugal. Apenas em 1962, com o Estatuto da Mulher Casada, essa condição começou a ser alterada de forma relevante.

São mudanças recentes o suficiente para que muitos hábitos familiares ainda carreguem resquícios desse passado. Em diversas famílias, a administração do patrimônio continua concentrada em uma única pessoa, geralmente o marido ou o patriarca, mesmo quando isso já não reflete a realidade da família.

O problema é que patrimônio sem diálogo tende a virar conflito. O IBGC registra que, no Brasil, cerca de 90% dos negócios estão sob controle familiar, mas apenas uma parcela de 3% a 4% sobrevive à terceira geração. O instituto também relaciona a perda de longevidade das empresas familiares à falta de mecanismos para mediar conflitos e à pouca preparação de sucessores e sucedidos.

Ainda que empresa familiar e patrimônio financeiro não sejam a mesma coisa, a lógica é parecida: quando não há regras claras, papéis definidos e conversas antecipadas, o patrimônio construído ao longo de décadas pode ser pressionado por decisões tomadas em meio a luto, insegurança, disputa ou urgência.

O planejamento sucessório não serve apenas para transferir bens. Serve para reduzir incertezas antes que elas se transformem em conflito.

Incluir as mulheres da família é uma decisão patrimonial.
Não apenas uma decisão simbólica.

A boa notícia é que esse cenário não é inevitável. Famílias que tratam o patrimônio como um assunto compartilhado tendem a chegar à sucessão com mais clareza, menos ruído e mais confiança.

Isso não significa expor todos os detalhes de forma precipitada, nem transferir decisões sem preparo. Significa construir, aos poucos, uma cultura familiar em que esposa, filhas, mães e demais herdeiros relevantes entendam como o patrimônio está organizado, quais são os objetivos da família e quais decisões precisam ser tomadas antes de uma ausência.

Na prática, esse processo pode começar por movimentos simples, mas muito relevantes:

1. Explicar como o patrimônio está organizado

Quais são os imóveis, investimentos, empresas, seguros, previdências, dívidas, participações e estruturas existentes? Quem sabe onde estão os documentos? Quem entende a lógica por trás das decisões tomadas até aqui?

2. Incluir esposa e filhas nas reuniões patrimoniais

Se essas pessoas poderão administrar, herdar ou tomar decisões no futuro, elas precisam construir relação com os profissionais que acompanham a família antes de qualquer inventário começar.

3. Definir regras antes da urgência

Testamento, holding, acordo de sócios, protocolo familiar, previdência, seguros e planejamento tributário são ferramentas possíveis. Mas nenhuma ferramenta resolve sozinha uma família que nunca conversou sobre papéis, responsabilidades e expectativas.

4. Preparar sucessores e sucessoras com antecedência

O objetivo não é transformar todos os herdeiros em especialistas financeiros. É garantir que as pessoas certas saibam fazer as perguntas certas, entendam os riscos principais e tenham apoio qualificado quando precisarem decidir.

A sucessão vai acontecer.
A preparação é uma escolha.

Muitas famílias tratam o planejamento sucessório como uma questão distante, técnica ou desconfortável demais para ser discutida. Mas, quando a conversa não acontece, a sucessão não deixa de existir. Ela apenas acontece com menos clareza.

O Brasil deve viver uma das maiores transferências patrimoniais do mundo nas próximas décadas. Parte relevante desse patrimônio passará por mulheres: esposas, mães, filhas, viúvas, sócias e herdeiras que, muitas vezes, ainda não foram chamadas para participar da conversa.

Corrigir isso não é apenas uma pauta de inclusão. É uma decisão de preservação patrimonial. Patrimônios familiares não se sustentam apenas por rentabilidade, imóveis, empresas ou estruturas jurídicas. Eles também dependem de confiança, preparo, diálogo e continuidade.

Se as mulheres da família terão papel relevante na continuidade do patrimônio, elas precisam participar da construção desse plano antes que ele seja necessário.

Se você é responsável pela administração do patrimônio familiar, mais cedo ou mais tarde, a transferência vai acontecer. A pergunta é simples: as pessoas que vão herdar, administrar ou proteger esse patrimônio já foram incluídas nessa conversa, ou vão descobrir tudo ao mesmo tempo em que precisarão decidir o que fazer com ele?

Para aprofundar leituras relacionadas, veja também conteúdos sobre planejamento sucessório, patrimônio, holding familiar, previdência e sucessão familiar na Vai Investir.

Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não constitui recomendação individualizada de investimento, planejamento sucessório, estruturação patrimonial, recomendação jurídica ou tributária. Estratégias de sucessão, testamento, holding, previdência, seguros, doações, acordos societários e demais estruturas devem ser avaliadas individualmente, com apoio de profissionais qualificados e de acordo com a realidade patrimonial, familiar, jurídica e tributária de cada família.

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