A Bolsa disparou.
Mas os riscos não desapareceram.
O mercado brasileiro ainda acumula ganhos expressivos após o primeiro turno, enquanto inflação, juros globais e petróleo reforçam a necessidade de cautela.
O cenário macroeconômico das últimas duas semanas mostrou como as expectativas podem mudar rapidamente, mesmo quando os fundamentos ainda exigem atenção.
O primeiro pregão após as eleições trouxe uma reação expressiva: em 5 de outubro, o Ibovespa avançou 7,70%, enquanto o dólar caiu 4,12%. O movimento refletiu uma revisão das expectativas dos investidores para a economia brasileira.
Mas o entusiasmo inicial encontrou limites ao longo dos dias seguintes. As pesquisas de segundo turno trouxeram novas oscilações, a inflação brasileira voltou a acelerar e o cenário internacional continuou marcado por petróleo caro, juros elevados e maior seletividade nos mercados de tecnologia.
A redução de uma incerteza pode melhorar os preços dos ativos. Mas não elimina os riscos econômicos que continuam presentes.
O desafio agora é entender quanto dessa melhora já foi incorporado aos preços e quais fatores ainda podem mudar a trajetória dos mercados.
Mercados brasileiros: Ibovespa avançou 6,93% e dólar recuou 2,75% entre 2 e 16 de outubro.
Inflação: IPCA brasileiro atingiu 4,58% em 12 meses, enquanto o CPI americano chegou a 3,7%.
Juros: o DI para janeiro de 2031 recuou 120 pontos-base na janela, apesar de uma recuperação parcial das taxas na segunda semana.
Exterior: o Brent alcançou US$ 109,86 por barril, enquanto as ações americanas de tecnologia enfrentaram maior pressão.
A Bolsa disparou.
Mas o rali perdeu força na segunda semana.
A reação dos mercados brasileiros ao primeiro turno foi imediata. O Ibovespa registrou forte valorização, o dólar recuou e as taxas de juros futuros apresentaram quedas expressivas.
Em 5 de outubro, o índice fechou acima dos 200 mil pontos pela primeira vez. O mercado recebeu também um volume excepcional de recursos estrangeiros: R$ 10,06 bilhões entraram na B3 naquele pregão, segundo os dados apresentados no levantamento.
O movimento refletiu uma revisão das probabilidades atribuídas aos diferentes cenários econômicos após a eleição, especialmente em relação à política fiscal e à trajetória futura dos juros.
Na semana seguinte, porém, os ativos passaram a devolver parte dos ganhos. Novas pesquisas eleitorais, a discussão sobre medidas com impacto fiscal e a proximidade do segundo turno ampliaram a volatilidade.
Ainda assim, o saldo da quinzena permaneceu positivo para a Bolsa e para os preços de títulos prefixados, enquanto o dólar encerrou o período abaixo da cotação de 2 de outubro.
| Indicador | 02/10 | 16/10 | Variação |
|---|---|---|---|
| Ibovespa | 192.115 pts | 205.430 pts | +6,93% |
| Dólar à vista | R$ 5,2165 | R$ 5,0730 | -2,75% |
| DI jan/2029 | 13,690% | 12,685% | -100 pb |
| DI jan/2031 | 13,920% | 12,720% | -120 pb |
Fonte: Briefing Econômico-Geopolítico, Edição 024. Variações calculadas entre os fechamentos de referência de 2 e 16 de outubro de 2026. pb = pontos-base.
O mercado antecipou parte de um cenário econômico potencialmente diferente. Agora, novas informações podem confirmar ou revisar essa expectativa.
A inflação voltou ao centro.
No Brasil e nos Estados Unidos.
Enquanto os mercados brasileiros reagiam às expectativas eleitorais, os indicadores de inflação lembravam que a política monetária ainda enfrenta desafios relevantes.
Brasil: IPCA volta a acelerar
O IPCA de setembro registrou alta de 0,82%, depois de uma deflação de 0,32% em agosto. Em 12 meses, a inflação passou a 4,58%, ultrapassando o limite superior de tolerância da meta, de 4,5%.
A alta teve participação importante da energia elétrica residencial, que avançou 7,98% com o fim do Bônus de Itaipu. Alimentação e bebidas também voltaram a subir, interrompendo três meses consecutivos de queda.
O resultado elevou as projeções de inflação para 2026. No Relatório Focus de 19 de outubro, a mediana das expectativas chegou a 5,22%, ante 5,01% no início do mês.
Ao mesmo tempo, a projeção mediana para a Selic no fim de 2026 recuou para 13,25%, enquanto os dados de atividade continuaram sugerindo perda gradual de ritmo da economia.
A inflação corrente piorou, mas as expectativas de juros ainda apontam para novos cortes. Essa combinação aumenta a importância dos próximos dados.
Uma explicação possível está na composição da inflação: parte da aceleração decorreu de choques específicos de preços, enquanto as projeções para 2027 e 2028 permaneceram relativamente estáveis.
Ainda assim, a trajetória dos juros dependerá também do câmbio, das expectativas de inflação e do comportamento da atividade econômica.
Estados Unidos: energia pressiona os preços
Nos Estados Unidos, o CPI de setembro subiu 0,6% no mês e alcançou 3,7% em 12 meses.
A gasolina avançou 9,1% e respondeu por mais da metade da alta mensal do índice. O núcleo da inflação também acelerou, reforçando a necessidade de cautela do Federal Reserve.
O mercado passou a trabalhar predominantemente com a manutenção dos juros americanos na reunião de outubro, mas uma pausa não significa que o ciclo de aperto monetário tenha necessariamente terminado.
O exterior continua pressionado.
Petróleo, tecnologia e dívida soberana no radar.
Além da inflação, três movimentos chamaram a atenção no cenário internacional: a escalada das tensões no Estreito de Ormuz, a correção das ações americanas de tecnologia e as preocupações com o custo da dívida soberana.
Petróleo: o risco de oferta voltou a crescer
Os ataques contra navios comerciais próximos ao Estreito de Ormuz intensificaram as preocupações com o transporte de petróleo e derivados. Relatos de embarcações atingidas e afundadas reforçaram a percepção de risco sobre as rotas marítimas da região.
Nesse ambiente, o Brent encerrou 16 de outubro a US$ 109,86 por barril, acumulando valorização de aproximadamente 7,4% em relação à referência da edição anterior.
Para o Brasil, o petróleo mais caro produz efeitos em diferentes direções: pode favorecer receitas ligadas às exportações de energia, mas também ampliar pressões sobre combustíveis, inflação e decisões de política monetária.
Tecnologia: as expectativas estão sob revisão
Nos Estados Unidos, o Nasdaq recuou 4,48% na semana de 12 a 16 de outubro, em meio a dúvidas sobre o endividamento e a capacidade de geração de caixa de empresas expostas à expansão da infraestrutura de inteligência artificial.
O movimento não representa, por si só, uma mudança definitiva nas perspectivas da tecnologia. Mas reforça que expectativas elevadas de crescimento precisam ser acompanhadas por resultados capazes de sustentá-las.
Juros soberanos: o alerta do FMI
Nas reuniões anuais de outubro, o Fundo Monetário Internacional alertou para riscos relacionados ao aumento dos rendimentos dos títulos soberanos, à elevada dívida pública e ao crescimento da alavancagem em determinados segmentos do mercado.
A França permanece como um dos focos dessa discussão na Europa, com o debate sobre o orçamento de 2027 e a trajetória das contas públicas influenciando os prêmios exigidos pelos investidores.
Na China, o PIB avançou 4,5% no terceiro trimestre em relação ao mesmo período do ano anterior. Apesar do crescimento acima do esperado, a fraqueza da demanda doméstica e do investimento continua sendo um ponto de atenção.
O risco global não está apenas na próxima decisão dos bancos centrais. Está também no custo de financiar governos e empresas em um ambiente de dívida elevada.
O que muda para os investimentos?
O rali exige análise, não decisões automáticas.
A principal conclusão da quinzena não é que os riscos desapareceram ou que a valorização dos ativos brasileiros não possa continuar.
É que os preços passaram a incorporar expectativas diferentes, enquanto as variáveis econômicas que poderão confirmar essas expectativas ainda estão em evolução.
Na leitura de Frederico Mourão, isso exige acompanhar os seguintes pontos:
Renda fixa
Os pós-fixados continuam oferecendo remuneração nominal elevada. Já os títulos indexados à inflação preservam relevância na análise de proteção do poder de compra, enquanto a queda dos juros futuros exige atenção à relação entre preço, prazo e risco de marcação a mercado.
Bolsa brasileira
A valorização recente mostra que parte de uma melhora esperada já foi antecipada. Para avaliar oportunidades, será importante distinguir empresas com fundamentos capazes de sustentar preços maiores daquelas cuja valorização depende principalmente da continuidade do otimismo.
Câmbio
A amplitude da oscilação do dólar mostrou os limites de projeções cambiais excessivamente estreitas em períodos eleitorais. No briefing, a faixa de acompanhamento foi revista para R$ 4,90 a R$ 5,35 até o segundo turno, sem viés direcional.
Investimentos internacionais
A combinação entre inflação americana, juros soberanos elevados e maior volatilidade das ações de tecnologia reforça a importância de avaliar prazo, qualidade dos ativos e concentração de riscos na exposição internacional.
As observações acima refletem a análise de cenário do autor, e não recomendações de alocação para uma carteira específica. A faixa cambial apresentada é uma hipótese de acompanhamento, não uma previsão garantida.
O mercado mudou de preço.
Agora espera a confirmação dos fundamentos.
Outubro começou com um movimento expressivo de valorização dos ativos brasileiros. A Bolsa avançou, o dólar recuou e a curva de juros futuros incorporou expectativas de um cenário diferente.
Mas a inflação segue pressionada, o petróleo voltou a subir e os juros globais continuam em níveis elevados. Esses fatores mantêm a necessidade de cautela na avaliação dos próximos movimentos.
Nas próximas semanas, a atenção estará concentrada no segundo turno de 25 de outubro, na decisão do Federal Reserve de 27 e 28 de outubro e na reunião do Copom de 3 e 4 de novembro.
O resultado eleitoral será uma informação importante para os mercados. Mas a trajetória econômica continuará dependendo de decisões de política fiscal, inflação, atividade, câmbio e condições internacionais.
O mercado já começou a antecipar uma mudança. O próximo desafio será descobrir quanto dessa expectativa poderá se transformar em realidade.
Para o investidor, isso reforça a importância de avaliar risco, prazo e diversificação, sem confundir movimentos intensos de curto prazo com mudanças definitivas de cenário.
Para aprofundar o tema, veja também os conteúdos da Vai Investir sobre
inflação,
Selic,
Ibovespa,
risco fiscal e
diversificação.
Briefing Econômico-Geopolítico — Edição 024, Frederico de Araújo Abreu Mourão, 19/10/2026; Banco Central do Brasil; IBGE; B3; Federal Reserve; Bureau of Labor Statistics; Fundo Monetário Internacional, World Economic Outlook e Global Financial Stability Report de outubro de 2026. Dados e análises referentes ao período de 5 a 18 de outubro, com atualização de expectativas em 19 de outubro quando indicada.
Este conteúdo possui caráter informativo e educacional e não constitui recomendação individualizada de investimento, compra ou venda de valores mobiliários. As análises refletem os dados disponíveis no período considerado e incluem interpretações e cenários sujeitos a revisão. A composição de uma carteira deve considerar perfil de risco, objetivos, horizonte de investimento, necessidades de liquidez e circunstâncias individuais de cada investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros.
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