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Com Ômicron, minério e funcionalismo, Ibovespa cai 0,65%, a 104,8 mil pontos

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Em mais uma sessão de giro muito enfraquecido nesta reta final de ano, o Ibovespa devolveu os ganhos do dia anterior, quando especialmente as ações do setor de varejo reagiram a leituras preliminares positivas sobre as vendas de Natal, nos Estados Unidos como no Brasil – por lá, o S&P 500 renovou ontem máxima histórica e, hoje, teve leve ajuste negativo. Nesta terça-feira, 28, prevaleceu desde cedo na B3 a queda de 3% no minério de ferro na China (Qingdao), com Vale acentuando as perdas do dia anterior (hoje, 2,72% no fechamento) e retração de até 1,93% (Usiminas PNA) nas ações de siderurgia, à exceção de CSN ON (+0,12%). O dia foi de moderada acomodação no grande setor financeiro (BB ON -0,58%), que havia avançado ontem.

“Os futuros do minério de ferro negociados na bolsa de Dalian recuaram pelo segundo pregão consecutivo, após dados decepcionantes da produção de aço chinesa. A produção de aço bruto em meados de dezembro caiu 2,3% em relação aos 10 primeiros dias do mês – o que gera incertezas sobre a demanda no começo do ano que vem, ainda mais com as restrições ambientais por conta das Olimpíadas de Inverno”, observa em nota o analista Rafael Ribeiro, da Clear Corretora, destacando também as preocupações em torno da variante Ômicron, da Covid-19.

“Diante do aumento das infecções pela variante em diversos países, o mundo registrou, nesta terça-feira, 28, o recorde de casos diários de Covid-19 desde o início da pandemia. Foram contabilizados 1,45 milhão de novos casos em um único dia ao redor do planeta”, acrescenta.

Neste contexto cauteloso, o Ibovespa fechou hoje abaixo dos 105 mil pontos, em queda de 0,65%, aos 104.864,17, tendo oscilado entre mínima de 104.503,32 pontos e máxima de 105.652,11 pontos, saindo de abertura a 105.554,65 pontos. Ainda mais fraco do que o de ontem, o giro financeiro ficou em R$ 16,3 bilhões nesta terça-feira. Faltando duas sessões para o fechamento de 2021, o índice avança 2,89% no mês, mas cede 0,03% na semana e 11,89% no ano.

As duas quinzenas de dezembro tiveram sentidos opostos: a relativa recuperação observada na primeira parte do mês, quando saiu de 100,7 mil pontos no fechamento do dia 1º para 107,4 mil no encerramento do dia 15 deu lugar a uma retração desde os 108,3 mil pontos vistos no dia seguinte, 16, quando a referência da B3 atingiu o melhor nível de fechamento deste dezembro e o maior desde 25 de outubro (108,7 mil pontos).

Nas sessões seguintes, de 17 (-1,04%) e 20 de dezembro (-2,03%), o Ibovespa registraria a pior sequência do mês em curso, reagindo a uma combinação mais cautelosa quanto ao tom restritivo que os BCs vêm assumindo na orientação da política monetária, em momento no qual a variante Ômicron tem obscurecido a percepção sobre o ritmo de recuperação global nesta virada para 2022. O quadro externo, menos favorável, se acresce às incertezas que acompanharam os ativos brasileiros no segundo semestre, quando se acentuaram as dúvidas quanto à direção e sustentabilidade da política fiscal a caminho de ano eleitoral, o que se refletiu com particular intensidade no câmbio e na curva de juros, mas também na Bolsa.

Para piorar, 2021 chega ao fim com auditores fiscais entregando cargos de chefia, insatisfeitos com o aumento seletivo concedido a policiais federais – demandas salariais no funcionalismo, caso venham a ganhar corpo e serem mal conduzidas, têm potencial para agravar a volatilidade em período no qual costuma comparecer – os anos eleitorais. Assim, mesmo com os descontos acumulados na B3 desde julho, quando iniciou sequência de cinco perdas mensais, o Ibovespa não encontrou fôlego para um rali de fim de ano, diferentemente de 2020, quando havia sido abatido no começo da pandemia (-8,43% em fevereiro e -29,90% em março), mas teve força para uma recuperação entre abril e julho, retomada com intensidade nos dois últimos meses daquele ano (+15,90% em novembro e +9,30% em dezembro).

Agora, com as incertezas sobre a situação fiscal transitando de 2021 para 2022 o ganho inferior a 3% no Ibovespa neste finzinho de mês não é comparável à perda de quase 25 mil pontos observada entre o fechamento de junho (126.801,66) e o de novembro (101.915,45), uma variação negativa de 19,62% no intervalo.

“A princípio, (o presidente Jair) Bolsonaro falou em reajuste salarial para todo o funcionalismo, depois mudou o discurso, com a equipe econômica dizendo que isso não seria possível. A partir disso, houve uma série de mobilizações, com entrega de cargos. Na segunda, 27, a contagem do Sindifisco estava em 738 auditores que entregaram cargos de chefia em protesto contra o governo, o que corresponde a 93% dos delegados (da Receita) no país”, diz Heloïse Sanchez, da equipe de análise da Terra Investimentos. “Amanhã, haverá uma assembleia conjunta dos servidores federais, em que devem deliberar sobre mobilização por aumento salarial, algo que está entrando no radar, com diversas consequências (possíveis), contribuindo hoje para trazer o Ibovespa um pouco mais pra baixo”, acrescenta.

Com o petróleo em alta moderada na sessão, Petrobras ON (+0,06%) e PN (+0,10%) foram a exceção levemente positiva do dia entre as ações de maior liquidez. Na ponta do Ibovespa, Cielo subiu 4,13%, à frente de Yduqs (+3,94%) e de CVC (+3,13%). No lado oposto, Assaí cedeu 3,96%, Lojas Americanas, 3,15%, e Intermédica, 2,99%.

Dólar

Em um dia de movimentação parca, após oscilar entre pequenas altas e quedas durante todo o pregão, o dólar encerrou esta terça-feira próximo da estabilidade, em alta de 0,02%, aos R$ 5,6401. Em uma semana marcada pela baixa liquidez nos negócios, o dólar tem pressão de baixa, por um lado, com as bolsas globais emplacando um rali de fim de ano nos últimos dias e alguma minimização dos riscos com a Ômicron que pesaram nos negócios na semana passada. Por outro, contudo, o câmbio tem pressões internas, com as incertezas fiscais e políticas para o próximo ano.

“O câmbio já entrou em um movimento de fim de ano, vai perdendo volume. A tendência é ficar mesmo de lado. É difícil ter um movimento mais sustentado nessa época”, aponta o estrategista-chefe do Modalmais, Felipe Sichel. Para ele, apesar de o dólar não estar forte lá fora, o real também não encontra fundamentos para subir aqui.

Para Lucas Schroeder, diretor de operações da Câmbio Curitiba, o mercado já se volta para as pressões sobre o câmbio em 2022, ano de eleições e que promete bastante instabilidade na moeda. “Já vamos tendo perspectivas para cenário futuro, de 2022. Temos questão fiscal, que já está no radar, com a pressão para reajuste dos servidores, todo o cenário político, já vamos começar janeiro com bastante variação de valores”, aponta.

Após pressão por parte de várias categorias do funcionalismo federal, destacadamente os auditores fiscais, por reajuste salarial, os servidores devem fazer uma assembleia amanhã para decidir sobre os próximos passos da mobilização, de acordo com o Fórum Nacional Permanente de Carreiras Típicas do Estado (Fonacate). A pressão – que surgiu após o presidente Jair Bolsonaro sinalizar com reajuste apenas para policiais federais – preocupa a equipe econômica, que tem receio de um efeito em cascata.

Lá fora, o dólar opera misto ante pares emergentes e tem leve alta frente a moedas fortes. O índice DXY, que mede a moeda americana ante uma cesta de divisas fortes, avançava 0,10% às 17h. Já frente emergentes, tinha queda ante peso chileno e mexicano e subia em relação ao rand sul africano, lira turca e rublo russo.

Apesar de entender que ainda não há riscos mais graves, o investidor monitora globalmente o avanço e os impactos da variante Ômicron, após o cancelamento de milhares de voos nos últimos dias e o número recorde de casos globais. Até o momento, contudo, a percepção é de que há indícios suficientes para acreditar que a crise será menor do que a ocorrida com a variante Delta.

Taxas de juros

Os juros futuros fecharam a sessão regular com viés de alta na ponta curta e em leve queda na longa, configurando mais um dia de perda de inclinação para a curva, a despeito do cenário fiscal no Brasil novamente em alerta, num contexto de liquidez reduzida pelas festas de fim de ano. Os desdobramentos da disseminação da cepa Ômicron, principalmente no Hemisfério Norte, são monitorados de perto pelos investidores, mas sem pânico na medida em que a nova onda não é acompanhada por aumento de mortes. Ao mesmo tempo, pode impor maior cautela por parte dos bancos centrais no processo de retirada de estímulos à economia, o que em tese deixa os prêmios do trecho longo mais atrativos num contexto manutenção da Selic em níveis elevados vis-à-vis as taxas no exterior. O clima ameno nos mercados internacionais nesta terça-feira e o dólar relativamente comportado também ajudam a explicar o desenho da curva.

A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2023 subiu de 11,645% no ajuste de ontem para 11,67% (sessão regular e estendida) e a do DI para janeiro de 2025 ficou perto da estabilidade, ao passar de 10,582% para 10,59% (regular). Na estendida, caiu a 10,545%. O DI para janeiro de 2027 fechou com taxas de 10,50% (regular) e 10,48% (estendida), de 10,531%.

“O ambiente externo ajuda a manter certa calmaria aos ativos locais, apesar dos ruídos internos ligados à tensão no funcionalismo, em especial entre os auditores da Receita”, destacou o economista Silvio Campos Neto, no serviço on-line da Tendências Consultoria, referindo-se à debandada de servidores em protesto contra cortes no orçamento do órgão e reajustes salariais apenas à categoria de policiais federais trazidos no Orçamento de 2022.

O analista de Investimentos Renan Sujii vê a ponta curta pressionada pelas apostas de alta da Selic e o movimento da longa na contramão dos riscos fiscais que o noticiário sobre o funcionalismo aponta. “O mercado ainda não precificou, mas é um impacto importante, com ameaça de paralisação das atividades”, disse. “No início de 2022, no pós-festas, o cenário pode se complicar”, afirmou.

Aparentemente, as más notícias internas tem sido contrabalançadas pelo exterior mais favorável, a despeito do aumento de casos de Covid em boa medida causados pela variante Ômicron. “A reação do mercado tem sido suavizada porque não há incremento nas mortes, mas, de todo modo, com o aumento das restrições, o processo de retirada dos estímulos de liquidez pelos bancos centrais pode ser mais paulatino”, avalia Sujii.

Nas reuniões recentes, as autoridades monetárias mundo afora citavam a cepa como um risco a ser acompanhado, mas nem por isso trouxeram um discurso dovish. A questão é que nos últimos dias, com as festas de fim de ano, a situação piorou muito. Milhares de voos foram cancelados por falta de tripulação, países retomaram restrições e os casos globais diários de coronavírus atingiram ontem um recorde.

Um gestor acredita que o recuo da ponta longa nos últimos dias pode estar relacionado à ausência dos leilões do Tesouro desde a semana passada. “Não deixa de ser uma pressão tomadora a menos”, afirmou. As operações serão retomadas na terça-feira, dia 4, com ofertas de NTN-B e LFT.