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Notícias & Opinião

10 min de leitura

Âncora fiscal: por que a Bolsa caiu 18% após a eleição

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Âncora fiscal e volatilidade da Bolsa brasileira após o segundo turno

Investor Insight • Cenário Econômico • Novembro 2026

Um pregão desfez o rali.
Agora o mercado espera uma âncora fiscal.

O circuit breaker, a alta do dólar e a abertura dos juros futuros mostraram quanto do rali de outubro dependia de um único cenário. Na véspera do Copom, a ausência de uma âncora fiscal passou a ser a questão central.

Por Frederico de Araújo Abreu Mourão • Consultor Financeiro | Assessoria de Inteligência Econômica
Investor Insight • Edição 025 • 3 de novembro de 2026

Na edição anterior, o Ibovespa havia ultrapassado os 200 mil pontos, o dólar operava perto de R$ 5 e a curva de juros precificava a continuidade dos cortes da Selic. Duas semanas depois, quase todo esse movimento foi desfeito.

Em 25 de outubro, Luiz Inácio Lula da Silva foi reeleito com 51,79% dos votos válidos, revertendo o resultado do primeiro turno. No pregão seguinte, a B3 acionou o circuit breaker pela primeira vez desde março de 2020. O Ibovespa fechou o dia em queda de 13,88%, e o dólar subiu 8,21%, a maior alta diária desde janeiro de 1999.

Mais do que o resultado eleitoral em si, o que passou a pesar nos preços foi a falta de uma âncora fiscal clara para o próximo mandato.

O mercado não está precificando uma ruptura. Está cobrando um prêmio pela falta de uma âncora fiscal verificável.

Os principais movimentos da quinzena

Bolsa brasileira: o Ibovespa perdeu 18,12% na semana de 26 a 30 de outubro e terminou em 167.921,80 pontos.

Câmbio e juros: o dólar à vista subiu 9,04% na semana, a maior alta semanal desde 2008. O DI para janeiro de 2031 avançou 249 pontos-base na quinzena.

Copom: a decisão de 4 de novembro deve manter a Selic em 13,75%, segundo os instrumentos de mercado. A curva passou a embutir altas até 2027.

Exterior: Fed, BCE e Banco do Japão mantiveram os juros. O Brent superou US$ 115 por barril com a continuidade do bloqueio no Estreito de Ormuz.

O choque de 26 de outubro.
Três semanas desfeitas em um pregão.

O circuit breaker foi acionado às 10h03, e os negócios só foram retomados às 10h48. No pior momento do dia, o Ibovespa chegou a cair 17,34%, e o dólar bateu R$ 5,6049. Segundo levantamento da Elos Ayta, as empresas listadas perderam R$ 734 bilhões em valor de mercado apenas naquela segunda-feira.

Nos juros, o DI para janeiro de 2031 chegou a 15,94% durante o pregão. O Tesouro Nacional cancelou os leilões de títulos atrelados à inflação e de prefixados previstos para aquela semana, e o Banco Central realizou uma operação de US$ 4 bilhões no mercado futuro de câmbio.

Nos dias seguintes, não houve recuperação relevante. Sem sinais sobre a âncora fiscal, a curva de juros terminou a semana mais inclinada, e o saldo da quinzena ficou assim:

Indicador 16/10 30/10 Variação
Ibovespa 205.430 pts 167.921,80 pts −18,26%
Dólar à vista R$ 5,0730 R$ 5,4443 +7,32%
DI jan/2029 12,685% 14,935% +225 pb
DI jan/2031 12,720% 15,210% +249 pb

Variações calculadas sobre os fechamentos de 16 de outubro de 2026, referência da Edição 024. Último pregão coberto: 30 de outubro (a B3 não funcionou em 2 de novembro, Finados). O dólar comercial de 30/10 aparece em algumas fontes a R$ 5,446; a série do Investor Insight segue o dólar à vista. pb = pontos-base.

Em perspectiva: em relação a 2 de outubro, antes do primeiro turno, o Ibovespa acumula queda de 12,6%. O índice fechou outubro com perda de 9,88% e mantém alta de 4,22% no ano.

O rali era uma leitura ou uma aposta?
A lição dos eventos binários.

A velocidade da reversão ajuda a entender o que sustentava a alta de outubro. Na avaliação de Frederico Mourão, o rali posterior ao primeiro turno não refletia uma melhora já observada nos fundamentos, mas, em boa parte, a expectativa de um resultado eleitoral específico.

Essa expectativa estava mais concentrada nos preços do que nas pesquisas. Enquanto os levantamentos de intenção de voto indicavam disputa equilibrada, plataformas de mercados de previsão chegaram a atribuir mais de 83% de chance à vitória de Flávio Bolsonaro.

Acertar a trajetória dos preços até um evento não é o mesmo que acertar o evento. Quando o resultado é binário, o risco está concentrado no dia seguinte.

O próprio Investor Insight ilustra esse ponto. Na edição anterior, a faixa de acompanhamento do dólar foi revista para R$ 4,90 a R$ 5,35, válida até 25 de outubro. Ela foi respeitada: em 23 de outubro, a moeda estava em torno de R$ 4,99. Mas a faixa vencia justamente no dia da votação, e no pregão seguinte o dólar chegou a R$ 5,60.

Uma faixa que termina antes do evento relevante não informa o risco que mais importa. Por isso, a partir desta edição, as estimativas para o câmbio passam a ser apresentadas como cenários condicionais.

Sem âncora fiscal,
a curva de juros cobra prêmio.

O que é uma âncora fiscal?

Âncora fiscal é a referência que permite prever o comportamento das contas públicas: uma regra para os gastos, uma meta de resultado primário ou o compromisso crível de quem conduz a política econômica. Quando ela é clara, investidores conseguem estimar a trajetória da dívida. Quando falta, passam a exigir juros maiores para financiar o governo, e esse prêmio se espalha para o câmbio, a Bolsa e o crédito.

A pergunta que ficou sem resposta

O presidente do PT, Edinho Silva, afirmou que o próximo ministro da Fazenda será anunciado até o fim do ano e que a meta fiscal será mantida. Até o fechamento desta edição, porém, não havia nome definido nem regra detalhada para as despesas obrigatórias.

Alguns sinais indicam que o mercado não trabalha com um cenário de ruptura. A Moody’s manteve a nota do Brasil em Ba1, com perspectiva estável. E, mesmo com a saída de R$ 2,85 bilhões em 26 de outubro, o fluxo estrangeiro na B3 seguiu positivo no mês, com entrada líquida de R$ 13,3 bilhões até aquela data.

A leitura de Frederico Mourão

Com a Selic real elevada e a dívida acima de 80% do PIB, dois eventos podem construir a âncora fiscal e devolver parte do prêmio: a escolha do ministro da Fazenda e uma regra verificável para as despesas obrigatórias. Sem eles, a inclinação da curva tende a persistir, mesmo com a Selic parada.

Copom: o corte saiu do preço

O Copom começou sua reunião nesta terça-feira e anuncia a decisão em 4 de novembro. Antes do segundo turno, a curva precificava um corte quase certo da Selic. Agora, a manutenção em 13,75% é o cenário dominante.

Os dados da B3 sobre opções de Copom indicavam 63,1% de probabilidade de manutenção e 28,0% de corte de 25 pontos-base. Na manhã de 26 de outubro, no auge do pânico, a curva de DI chegou a precificar 75% de chance de alta. Em 30 de outubro, o juro implícito para o fim de 2027 estava próximo de 15%.

Os números vêm de instrumentos e horários diferentes, mas apontam na mesma direção: o ciclo de cortes foi interrompido nos preços.

Os dados da economia real seguem firmes. A PNAD do terceiro trimestre registrou desemprego de 5,2%, o menor para o período desde 2012. Já o Relatório Focus de 26 de outubro foi coletado antes do choque e deve ser revisto nas próximas semanas.

Acompanhe as decisões e comunicados do Copom no
Banco Central do Brasil.

Lá fora, os bancos centrais pararam.
E o petróleo segue pressionando.

Estados Unidos: pausa com voto dividido

Em 28 de outubro, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4,00%, por 10 votos a 2. Os dois votos divergentes defenderam mais uma alta. No dia seguinte, o PIB do terceiro trimestre mostrou crescimento anualizado de 3,4%, enquanto o núcleo do PCE desacelerou para 2,5%. Crescimento forte com núcleo cedendo permite ao Fed esperar sem cortar.

Nas bolsas, a tese da inteligência artificial seguiu sob escrutínio. A Nasdaq recuou 5,30% em outubro, o pior mês desde março de 2025, pressionada pelos planos de investimento das grandes empresas de tecnologia e por alertas sobre geração de caixa.

Dados do PIB americano:
Bureau of Economic Analysis (BEA).
Calendário e comunicados do
Federal Reserve.

Europa, Japão e Ormuz

O BCE manteve a taxa de depósito em 2,50%, e Christine Lagarde anunciou que deixará o cargo em fevereiro de 2027. Na França, o spread dos títulos de 10 anos sobre os alemães superou 150 pontos-base, o maior nível desde a crise da dívida soberana europeia. No Japão, o banco central manteve a taxa em 1,25%.

No Oriente Médio, o bloqueio do Estreito de Ormuz continua sem acordo. O Brent chegou a US$ 116,72 por barril em 23 de outubro e permaneceu perto de US$ 115 nos dias seguintes. Para o Brasil, o efeito é duplo: favorece receitas de produção e exportação, mas pressiona combustíveis e expectativas de inflação.

O que esse cenário significa para os investimentos?
A diversificação mostrou sua função.

A quinzena mostrou na prática por que carteiras diversificadas carregam posições que parecem pouco atraentes em momentos de euforia. Enquanto a Bolsa e os prefixados longos registravam perdas expressivas, os pós-fixados continuavam rendendo.

Na leitura de Frederico Mourão, alguns pontos merecem atenção:

Pós-fixados

Com a Selic parada por mais tempo e a curva embutindo altas até 2027, ganham relevância. Durante a turbulência, foram a parcela da renda fixa que preservou estabilidade e liquidez.

Títulos atrelados à inflação

A alta dos juros reais longos provoca perdas de marcação a mercado no curto prazo e eleva as taxas para novas aplicações. Na avaliação do autor, entradas escalonadas reduzem o risco de concentrar a decisão em um único momento de volatilidade.

Prefixados longos

Registraram a maior perda da renda fixa na quinzena. A cautela permanece, e uma reavaliação depende do surgimento de uma âncora fiscal crível.

Bolsa brasileira

A posição analítica neutra foi mantida. Empresas domésticas e cíclicas, mais sensíveis aos juros, seguem dependentes da definição de uma âncora fiscal. Exportadoras ganham preferência relativa com o dólar mais alto. Bancos e empresas com controle estatal tendem a ser mais sensíveis a mudanças de diretriz econômica.

Câmbio: dois cenários condicionais

Com âncora fiscal crível (nome para a Fazenda e regra verificável de despesas): dólar entre R$ 5,20 e R$ 5,45.

Sem sinalização até o fim de novembro, ou com medidas expansionistas: dólar entre R$ 5,50 e R$ 5,90. O autor ainda não atribui probabilidade a nenhum dos dois cenários.

Investimentos internacionais

A visão sobre ações americanas segue neutra, com desconforto em relação ao volume de investimentos em inteligência artificial. Títulos do Tesouro americano de prazo curto continuam relevantes. Na Europa, a França concentra o principal risco.

As observações refletem cenários e interpretações do autor, não recomendações individualizadas de alocação. Os cenários cambiais e demais hipóteses podem ser revistos conforme novas informações.

O preço já reagiu.
Agora faltam as respostas.

Em duas semanas, os ativos brasileiros passaram do otimismo à forte aversão ao risco. A diferença não está nos dados econômicos, que seguem mostrando emprego forte e inflação ainda pressionada. Está na ausência de uma âncora fiscal para os próximos anos.

A agenda concentra os eventos capazes de reduzir ou ampliar essa incerteza: a decisão do Copom em 4 de novembro, o payroll americano em 6 de novembro, a ata do Copom em 10 de novembro, o IPCA de outubro em 12 de novembro, a ata do Fed em 18 de novembro e a reunião do Fed em 9 de dezembro. No Brasil, a escolha do ministro da Fazenda tende a pesar mais do que qualquer indicador isolado.

O mercado já fez o preço da incerteza. A próxima mudança relevante virá das respostas que ainda não foram dadas.

Para o investidor, a quinzena deixa uma lição que vale para além das eleições: diante de eventos binários, a pergunta mais útil não é qual resultado parece mais provável, mas quanto a carteira suporta perder se o resultado for o outro.

Para aprofundar a leitura, veja também os conteúdos da Vai Investir sobre
cenário macroeconômico,
mercado e eleições,
Selic,
renda fixa e
diversificação.

Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação individualizada de investimento, compra ou venda de valores mobiliários. As informações refletem os dados disponíveis entre 19 e 30 de outubro de 2026 e incluem interpretações e cenários sujeitos a revisão. Referências a eventos políticos têm finalidade exclusivamente econômica. A composição de uma carteira deve considerar objetivos, perfil de risco, horizonte de investimento, necessidades de liquidez e circunstâncias individuais de cada investidor. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros.

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