Outubro em dois atos.
Um rali histórico e uma queda ainda maior.
O Ibovespa em outubro viveu um dos melhores e um dos piores pregões do século, terminou o mês em queda de 10% e abriu novembro com juros altos por mais tempo e a Selic interrompendo o ciclo de cortes.
O desempenho do Ibovespa em outubro resume um mês dominado pelas eleições. No dia seguinte ao primeiro turno, em 5 de outubro, o índice subiu 7,7%, o nono melhor pregão desde 2000, com entrada recorde de capital estrangeiro. Três semanas depois, em 26 de outubro, dia seguinte ao segundo turno, caiu 13,9%, o terceiro pior pregão do período, atrás apenas de dois dias de março de 2020.
O Ibovespa encerrou o mês aos 167.922 pontos, com queda de 10% em reais e de 14,2% em dólares. A volatilidade não ficou restrita à Bolsa: juros futuros, câmbio e expectativas de inflação também foram reprecificados.
No exterior, o mês foi misto. As bolsas globais recuaram, com a rotação das ações ligadas à inteligência artificial para setores defensivos e de energia, enquanto os principais bancos centrais mantiveram os juros.
Em um único mês, o mercado brasileiro precificou dois cenários opostos. O que ficou foi a percepção de juros altos por mais tempo.
Bolsa brasileira: Ibovespa −9,9% no mês e +4,2% no ano; small caps (SMLL) −17,4% no mês.
Câmbio e juros: o real caiu 7,1% contra o dólar entre 23 e 30 de outubro, e os juros longos superaram 15%.
Bolsas globais: MSCI ACWI −1,7% em dólares; Nasdaq 100 −6,7%; mercados emergentes −8,1%.
Política monetária: Fed, BCE e Banco do Japão mantiveram os juros. Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75%.
- Cenário internacional: a rotação saiu da inteligência artificial
- Estados Unidos: economia forte e Fed em pausa
- Europa, Japão e China: França no radar e Ásia em queda
- Cenário doméstico: o mês em que o mercado mudou de cenário
- Ibovespa em outubro: exportadoras resistiram, domésticas devolveram tudo
- O que acompanhar em novembro
Cenário internacional.
A rotação saiu da inteligência artificial.
As bolsas globais recuaram em outubro. O índice MSCI ACWI, que reúne ações de países desenvolvidos e emergentes, caiu 1,7% em dólares. O movimento foi marcado pela saída de ações de semicondutores e inteligência artificial em direção a setores defensivos e de energia.
O ponto mais agudo veio em 30 de outubro, quando o Nasdaq 100 recuou 3,5% em um único pregão, depois de anúncios de investimentos elevados em inteligência artificial por grandes empresas de tecnologia. A Ásia concentrou as maiores perdas do mês, com destaque para Coreia e Taiwan, mercados que haviam liderado as altas do ano.
| Índice | Outubro | No ano |
|---|---|---|
| Dow Jones | +1,7% | +7,7% |
| S&P 500 | −0,9% | +10,7% |
| MSCI ACWI (global) | −1,7% | +9,9% |
| Euro Stoxx 50 | −3,8% | +0,6% |
| Nikkei 225 | −5,3% | +24,8% |
| Nasdaq 100 | −6,7% | +12,4% |
| CSI 300 (China) | −7,8% | −9,6% |
| MSCI Mercados Emergentes | −8,1% | +11,6% |
| Ibovespa | −14,2% | +5,0% |
Desempenho em dólares até 30 de outubro de 2026. Fonte: B3, Bloomberg e XP Research.
Mesmo depois da correção, o saldo do ano continua positivo na maior parte dos mercados desenvolvidos. A queda de outubro reflete menos uma deterioração da economia global e mais a cobrança por resultados de setores que acumularam altas expressivas.
Estados Unidos.
Economia forte e Fed em pausa.
Em 28 de outubro, o Federal Reserve manteve os juros entre 3,75% e 4,00% ao ano, por 10 votos a 2. Os dois votos divergentes defenderam mais uma alta, sinal de que a preocupação com a inflação segue presente no comitê.
Os dados divulgados no dia seguinte reforçaram a lógica da espera. O PIB americano do terceiro trimestre cresceu 3,4% em termos anualizados, depois de 2,2% no segundo, enquanto o núcleo do PCE, medida de inflação acompanhada pelo Fed, desacelerou para 2,5% anualizados. Crescimento firme com inflação de núcleo cedendo permite ao banco central aguardar sem cortar juros.
O rendimento do Treasury de 10 anos encerrou o período perto de 4,93%. Já em novembro, as eleições de meio de mandato deram aos democratas o controle da Câmara e do Senado, segundo projeções da imprensa americana, o que acrescenta uma variável fiscal ao cenário de 2027.
Dados do PIB americano:
Bureau of Economic Analysis (BEA).
Comunicados do
Federal Reserve.
Europa, Japão e China.
França no radar e Ásia em queda.
Zona do Euro
O Banco Central Europeu manteve a taxa de depósito em 2,50% em 29 de outubro. No mesmo dia, Christine Lagarde anunciou que deixará a presidência do BCE em 7 de fevereiro de 2027, antes do fim do mandato.
O principal foco de risco na região é a França. O spread entre os títulos franceses e alemães de 10 anos superou 150 pontos-base, o maior nível desde a crise da dívida soberana europeia, enquanto o país discute o orçamento de 2027. O Euro Stoxx 50 recuou 3,8% em dólares no mês.
Japão e China
O Banco do Japão manteve a taxa básica em 1,25%, e o Nikkei devolveu 5,3% em dólares, depois de acumular uma das maiores altas do ano. Na China, o PIB do terceiro trimestre cresceu 4,5%, com demanda doméstica ainda limitada. As bolsas chinesas tiveram outro mês negativo: o CSI 300 caiu 7,8% em dólares e acumula queda de 9,6% em 2026.
No mercado de commodities, a continuidade das tensões no Estreito de Ormuz levou o Brent a uma alta de 8,5% no mês, para cerca de US$ 112 por barril, o que favoreceu empresas produtoras e pressionou as expectativas de inflação em países importadores de combustíveis.
Cenário doméstico.
O mês em que o mercado mudou de cenário.
Primeiro ato: o rali
Os ativos brasileiros reagiram com força ao primeiro turno. Em 5 de outubro, além da alta de 7,7% do Ibovespa, os juros nominais e reais de 10 anos recuaram 134 e 50 pontos-base. O fluxo estrangeiro para a Bolsa e o volume negociado bateram recordes diários, de R$ 10,1 bilhões e R$ 85,6 bilhões. Entre 30 de setembro e 23 de outubro, o Ibovespa subiu 13,2% em dólares, o melhor desempenho entre as principais bolsas do mundo.
Segundo ato: a reversão
O resultado do segundo turno reverteu o movimento em um único pregão. Em 26 de outubro, a B3 acionou o circuit breaker, e a curva de juros futuros chegou a subir 265 pontos-base, com as taxas longas acima de 15%. Entre 23 e 30 de outubro, o real perdeu 7,1% contra o dólar, enquanto as demais moedas emergentes praticamente não se moveram. O movimento indica que o choque foi doméstico, não global.
Os investidores estrangeiros viraram vendedores, com saídas de R$ 10,5 bilhões nos quatro pregões até 28 de outubro, mas ainda terminaram o mês com saldo positivo de R$ 8,6 bilhões. A inflação implícita nos títulos públicos também subiu, sinalizando que o mercado passou a esperar preços mais altos nos próximos meses.
O real caiu 7,1% em uma semana enquanto as moedas de outros emergentes ficaram estáveis. O prêmio que o mercado passou a cobrar foi especificamente brasileiro.
Copom interrompe os cortes
O reflexo veio na política monetária. Em 4 de novembro, o Copom manteve a Selic em 13,75% ao ano, por unanimidade, interrompendo uma sequência de cinco cortes de 0,25 ponto percentual. O comunicado citou o aumento significativo das incertezas em torno do cenário base, expectativas de inflação mais elevadas e a alta do dólar, mas também uma desaceleração mais acentuada da atividade doméstica. O comitê não sinalizou os próximos passos.
Do lado da atividade, o mercado de trabalho segue firme: a PNAD do terceiro trimestre registrou desemprego de 5,2%, o menor para o período desde 2012. A inflação, por outro lado, já estava acima do teto da meta antes do choque, com o IPCA acumulado em 12 meses em 4,58% em setembro.
Comunicados e atas do Copom:
Banco Central do Brasil.
Dados de inflação:
IBGE.
Ibovespa em outubro:
exportadoras resistiram, domésticas devolveram tudo.
Treze dos dezesseis setores do Ibovespa caíram no mês. Os segmentos domésticos, que haviam subido antes do segundo turno, devolveram toda a alta. Entre 23 e 30 de outubro, o setor financeiro caiu 27,1%, os defensivos, 21,0%, os cíclicos, 20,2%, e as small caps, 32,8%.
As exportadoras, com receitas em dólar, foram a exceção. Papel e Celulose subiu 6,9%, beneficiado pelo real mais fraco, e Óleo e Gás avançou 4,0%, acompanhando o petróleo. Na outra ponta, os setores mais sensíveis aos juros longos lideraram as perdas, como Educação, Construção Civil e Transportes.
| Setor | Outubro | 2026 |
|---|---|---|
| Papel & Celulose | +6,9% | −4,5% |
| Óleo, Gás & Petroquímicos | +4,0% | +69,8% |
| TMT | +0,8% | −10,8% |
| Bancos | −18,2% | −7,7% |
| Varejo | −21,1% | −30,1% |
| Transportes | −24,1% | −20,4% |
| Construção Civil | −25,0% | −35,3% |
| Educação | −27,5% | −42,2% |
| Ibovespa | −9,9% | +4,2% |
| Small Caps (SMLL) | −17,4% | −18,8% |
Desempenho em reais até 30 de outubro de 2026. Fonte: B3, Economatica e XP Research.
Mais barata, mas não necessariamente uma pechincha
Depois da queda, o Ibovespa passou a negociar a 8,2 vezes o lucro projetado para os próximos 12 meses, abaixo da média de 10 anos, de 10 vezes, mas ainda acima da mínima de 2025, de 7 vezes. O prêmio de risco da Bolsa, que compara o retorno esperado das ações com o juro real de longo prazo, subiu para 4,5%, ainda abaixo da média histórica de 5,3%. Isso acontece porque, enquanto os preços caíram, o juro real também subiu, para cerca de 7,8%.
Com base nesse quadro, a XP Research rebaixou sua visão para a Bolsa brasileira para neutra. A casa estima um valor justo de 200 mil pontos para o Ibovespa no fim de 2027, potencial de cerca de 19%, considerado próximo ao retorno esperado da renda fixa no período.
Os três desafios para a Bolsa
1. Preocupação fiscal: o índice de estresse dos ativos locais calculado pela XP teve, em 26 de outubro, o maior salto diário desde 2002.
2. Inflação e juros em alta: o Brasil se aproxima desse regime, historicamente o mais desfavorável para a Bolsa desde 2002.
3. Risco para os lucros: com economia mais fraca e juros altos, há risco de revisão para baixo das projeções de lucro de 2027.
Pelo lado técnico, o índice de sentimento da XP, que chegou ao otimismo extremo em 9 de outubro, caiu para 18 de 100 em 29 de outubro. O nível é pessimista, mas ainda não atingiu o extremo que, historicamente, antecedeu recuperações. Nesse ambiente, ganham preferência empresas de alta qualidade, boas pagadoras de dividendos e exportadoras, com cautela em relação a companhias muito alavancadas.
O que acompanhar em novembro.
Juros altos por mais tempo.
Outubro deixou uma mudança clara de premissa: o cenário de cortes contínuos da Selic deu lugar a juros altos por mais tempo, com inflação pressionada pelo câmbio e pelo petróleo e uma economia que dá sinais de desaceleração.
Para as próximas semanas, os principais pontos de atenção são a ata do Copom, em 10 de novembro, o IPCA de outubro, em 12 de novembro, a ata do Fed, em 18 de novembro, e a reunião do Fed, em 9 de dezembro. No Brasil, a definição do próximo ministro da Fazenda e os primeiros sinais da política fiscal para o novo mandato tendem a pesar mais do que qualquer indicador isolado.
Em meses como outubro, a diversificação deixa de ser teoria. Foi ela que separou as carteiras que atravessaram o choque das que dependiam de um único cenário.
Para o investidor, a principal lição do mês é que expectativas podem ser incorporadas e desfeitas nos preços em questão de dias. Avaliar o papel de cada ativo na carteira, o horizonte de cada objetivo e a exposição a eventos binários continua sendo mais útil do que tentar antecipar o próximo movimento do mercado.
Para aprofundar a leitura, veja a análise do Investor Insight sobre
âncora fiscal,
o artigo sobre
eleições americanas e juros,
o Report Mensal de
setembro
e os conteúdos sobre
diversificação.
Este conteúdo tem caráter informativo e educacional e não constitui recomendação individualizada de investimento, compra ou venda de valores mobiliários. As informações refletem dados disponíveis até o início de novembro de 2026. Projeções e estimativas de valor justo podem ser revistas conforme novas informações. Referências a eventos políticos têm finalidade exclusivamente econômica. Rentabilidade passada não representa garantia de resultados futuros.
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