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8 min de leitura

Cenário macroeconômico: eleição, inflação e juros longos

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Cenário macroeconômico • Juros • Investimentos

Cenário macroeconômico:
eleição muda os preços, mas os juros longos seguem no comando.

O primeiro turno alterou a precificação dos ativos brasileiros, enquanto inflação doméstica, dívida pública e juros globais continuam impondo limites à melhora do cenário.

Por Frederico de Araújo Abreu Mourão • Consultor Financeiro | Assessoria de Inteligência Econômica

O cenário macroeconômico entrou em outubro com uma mudança importante de precificação, mas não necessariamente de fundamentos.

O primeiro turno das eleições produziu um resultado diferente daquele sugerido pelas pesquisas de véspera e abriu uma nova fase para os ativos brasileiros. Ao mesmo tempo, a inflação voltou a surpreender para cima, a dívida pública continuou avançando e os juros longos globais atingiram níveis que não eram vistos havia mais de duas décadas.

A combinação importa porque o mercado local pode reagir positivamente a uma redução de incerteza política, mas a capacidade de fechamento dos juros e valorização dos ativos continua limitada pelo custo global de capital e pelas próprias condições fiscais e inflacionárias do Brasil.

A eleição mudou parte do prêmio doméstico. Não mudou, porém, o preço que o mundo está cobrando para carregar duração.

Cenário macroeconômico:
os juros longos viraram o principal vetor global.

A principal mudança externa da quinzena não aconteceu na expectativa para a próxima decisão do Federal Reserve. Aconteceu na parte longa da curva.

O rendimento do Treasury americano de 10 anos chegou a 5,342% em 1º de outubro, enquanto o papel de 30 anos alcançou 5,683%. Foram os maiores níveis em mais de duas décadas.

Na comparação com 18 de setembro, o Treasury de 10 anos acumulou abertura de 18 pontos-base e o de 30 anos, de 23 pontos-base. O título de dois anos, por outro lado, praticamente não se moveu.

Quando o juro de dois anos fica parado e o de 30 anos sobe, o mercado não está necessariamente antecipando um Fed mais duro. Está cobrando mais para carregar prazo.

Parte desse prêmio vem da combinação entre déficits fiscais elevados, grande oferta de dívida soberana, inflação de energia e incerteza sobre o fim do ciclo de juros.

A França tornou essa discussão ainda mais explícita. O governo apresentou um orçamento com pacote de aproximadamente € 43 bilhões para reduzir o déficit, enquanto o prêmio do título francês de 10 anos sobre o alemão registrou a maior alta semanal em 17 anos.

Para o Brasil, esse movimento funciona como um teto. Mesmo que o cenário doméstico melhore, juros longos globais mais altos limitam o quanto a curva brasileira pode fechar.

O custo global de capital voltou a ser parte central da conta dos ativos brasileiros.

Energia:
mais petróleo circulando, mas o risco físico permanece.

O quadro energético trouxe alguma melhora física, mas não uma resolução geopolítica.

As exportações de petróleo pelo Estreito de Ormuz foram estimadas em média em 7,4 milhões de barris por dia em setembro, indicando recuperação importante do fluxo.

Ao mesmo tempo, as negociações diplomáticas entre Estados Unidos e Irã seguiram sem acordo definitivo. O bloqueio aos portos iranianos permanece em alguma forma e os episódios envolvendo petroleiros continuam compondo o risco físico da região.

Em 2 de outubro, países do G7 concordaram em liberar até 100 milhões de barris de petróleo e diesel ao longo de quatro meses, em coordenação com a Agência Internacional de Energia. A medida ajuda principalmente o mercado de derivados, que vinha operando sob forte pressão.

A liberação de reservas alivia o preço. Não resolve a rota.

Esse é o ponto relevante para investimentos: enquanto o risco de interrupção física continuar presente, energia permanece sensível a uma assimetria que não depende apenas da oferta disponível no curto prazo.

Brasil:
a eleição mudou o preço, enquanto a inflação voltou a incomodar.

No campo político, o primeiro turno terminou com Flávio Bolsonaro e Luiz Inácio Lula da Silva classificados para o segundo turno de 25 de outubro.

Segundo os números apresentados no briefing a partir da apuração do TSE, Flávio terminou o primeiro turno com 47,04% dos votos válidos, contra 45,15% de Lula. O resultado ficou diferente da fotografia das pesquisas de véspera e levou a uma reprecificação rápida dos ativos ligados ao Brasil.

Mas o ambiente doméstico não se resume à eleição.

O IPCA-15 de setembro subiu 0,70%, maior taxa para o mês desde 2021 e acima de todas as projeções levantadas pela pesquisa Broadcast. Em 12 meses, o índice foi a 4,47%, apenas três centésimos abaixo do teto da meta.

Parte importante da alta veio de componentes específicos: energia elétrica residencial avançou 7,42% com o fim do Bônus de Itaipu, passagens aéreas subiram 9,82% e cigarros, 14%.

A composição da inflação foi menos ruim do que o número cheio. Ainda assim, as expectativas voltaram a subir.

O Focus passou a projetar IPCA de 5,01% para 2026, enquanto a estimativa para a Selic no fim do ano permaneceu em 13,50%.

O Banco Central, por sua vez, reduziu sua projeção de crescimento do PIB de 2026 para 1,8% e reconheceu moderação gradual da atividade, principalmente nos setores cíclicos.

O fiscal continua na conta.
E o problema não é apenas o resultado primário.

As contas públicas de agosto reforçaram um ponto importante para o próximo governo.

O setor público consolidado registrou déficit primário de R$ 10 bilhões no mês. Em 12 meses, o déficit acumulado chegou a R$ 82,1 bilhões, equivalente a 0,62% do PIB.

O número mais relevante, porém, está nos juros nominais. Eles alcançaram R$ 1,18 trilhão em 12 meses, ou 8,86% do PIB.

A dívida bruta do governo geral avançou de 82,5% para 82,9% do PIB em apenas um mês.

Com o resultado primário próximo de zero e o custo de juros perto de 9% do PIB, a dinâmica da dívida depende cada vez mais do preço de financiá-la.

Por isso, independentemente do resultado eleitoral, a credibilidade fiscal será medida não apenas pela meta de resultado primário, mas também pela capacidade de reduzir o prêmio exigido para financiar a dívida.

O que os mercados já precificaram.
Bolsa sobe, curva fecha e volatilidade aumenta.

Entre 18 de setembro e 2 de outubro, o Ibovespa avançou 3,72% e encerrou o período em 192.114 pontos.

O dólar subiu 1,41%, para R$ 5,2165, enquanto a parte intermediária e longa da curva de juros brasileira fechou.

Ativo 18/09 02/10 Variação
Ibovespa 185.229 pts 192.115 pts +3,72%
Dólar R$ 5,144 R$ 5,2165 +1,41%
DI jan/2029 13,840% 13,690% -15 pb
DI jan/2031 14,020% 13,920% -10 pb
Treasury 10 anos 5,00% 5,18% +18 pb

Na sexta-feira anterior ao primeiro turno, o Ibovespa subiu 2,63% e atingiu o maior nível desde abril. Ao mesmo tempo, indicadores de volatilidade e o preço das opções também avançaram.

Isso mostra que valorização e incerteza podem coexistir: o mercado comprou uma determinada distribuição de probabilidades, mas continuou pagando proteção para o evento seguinte.

Fed:
a alta de outubro deixou de ser o cenário-base.

Nos Estados Unidos, dados recentes reduziram a pressão por uma nova alta imediata de juros.

O PCE de agosto subiu 3,4% em 12 meses e o núcleo ficou em 3,0%. Já o payroll de setembro mostrou criação de apenas 29 mil vagas, contra consenso de 84 mil, enquanto a taxa de desemprego subiu de 4,1% para 4,2%.

Com isso, a probabilidade de manutenção dos Fed Funds na reunião de 28 de outubro passou a dominar a precificação do mercado.

O curto prazo americano aliviou. O longo não.

Essa divergência ajuda a explicar por que o mercado deixou de discutir apenas o próximo movimento do Fed e voltou a olhar para prêmio de prazo, déficits soberanos e oferta de dívida.

O que muda para os investimentos.
Menos convicção cambial, mesma seletividade.

A principal mudança da quinzena está no câmbio. As demais leituras foram mantidas, ainda que com razões e custos atualizados.

Câmbio

A faixa de R$ 5,05 a R$ 5,35 foi mantida, mas o viés de alta foi retirado. O vetor eleitoral que sustentava essa leitura se resolveu parcialmente na direção de menor prêmio, ainda que o segundo turno mantenha a volatilidade elevada.

Renda fixa Brasil

Pós-fixados seguem como núcleo da carteira. NTN-Bs e IPCA+ intermediárias permanecem como posição estrutural, enquanto prefixados longos continuam exigindo cautela moderada diante da combinação entre evento eleitoral e prêmio de prazo global.

Bolsa brasileira

A posição permanece neutra. O Ibovespa avançou na janela, mas o segundo turno ainda é um evento com capacidade de reprecificar rapidamente bolsa, juros e câmbio.

Exterior

Treasuries curtas seguem em reconstrução gradual diante da maior probabilidade de pausa do Fed. Para prazos longos, a convicção continua menor, justamente porque o aumento do prêmio de prazo permanece como principal risco da curva.

Energia

A exposição tática permanece. A liberação de reservas pelo G7 ajuda a reduzir a pressão sobre diesel e petróleo, mas não elimina o risco associado às rotas de transporte e ao conflito no Oriente Médio.

O primeiro turno mudou a distribuição de probabilidades. Não eliminou os riscos que a carteira ainda precisa carregar até 25 de outubro.

O que monitorar agora.
A próxima janela concentra inflação, Fed e segundo turno.

Data Evento Por que importa
05 a 09/10 Primeiras pesquisas de segundo turno Nova referência para a precificação eleitoral.
07/10 Ata do FOMC Mostra o grau de convicção em uma alta adicional.
09/10 IPCA de setembro Confirma ou não a leitura de reversão do IPCA-15.
25/10 Segundo turno Evento com impacto potencial sobre câmbio, juros e Bolsa.
28/10 FOMC Define se o Fed mantém ou retoma o ciclo de altas.

Outubro começou com uma mudança de preço.
Ainda não com uma mudança completa de fundamentos.

O primeiro turno alterou a percepção de risco dos ativos brasileiros e abriu espaço para uma reprecificação rápida de Bolsa e juros.

Mas a inflação voltou a surpreender para cima, a dívida pública avançou e os juros longos americanos e europeus continuam em níveis elevados. Esses fatores impedem que a leitura doméstica seja isolada do restante do mundo.

Ao mesmo tempo, dados mais fracos de inflação e emprego nos Estados Unidos reduziram a probabilidade de uma nova alta do Fed já em outubro. O curto prazo ganhou algum alívio. O prêmio de prazo, não.

O Brasil ganhou uma nova distribuição de probabilidades. O investidor ainda precisa atravessar a próxima etapa sem confundir redução de incerteza com desaparecimento de risco.

Para aprofundar a leitura, veja também conteúdos sobre
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Este conteúdo tem caráter informativo e educacional. Não constitui recomendação individualizada de investimento, compra ou venda de ativos, nem análise formal de valores mobiliários. As leituras apresentadas refletem o cenário e os dados disponíveis no período analisado e podem mudar conforme novos indicadores econômicos, decisões de política monetária, eventos políticos e condições de mercado.

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