Skip to main content

Notícias & Opinião

Notícias & Opinião

Carta ao Investidor: viés de ação e a hora certa de não agir

Por
Artigos Vai Investir

Carta ao Investidor

A hora certa de não agir.
O viés de ação e a disciplina de permanecer quando o mercado exige movimento.

Uma reflexão sobre o viés de ação nos investimentos, a pressão por movimento e a virtude pouco reconhecida de saber esperar quando a melhor decisão é não mexer na carteira.

Por Davi Lelis • CFP® | Professor da FGV | Gestor Regional Centro-Oeste da Valor Investimentos

Em 1997, três pesquisadores da Universidade Ben-Gurion de Israel filmaram, catalogaram e analisaram 286 cobranças de pênalti ao longo de várias temporadas do futebol profissional. Queriam entender não os batedores, mas os goleiros. Especificamente, o que os goleiros fazem, o que deveriam fazer e por que raramente fazem o que deveriam.

O resultado foi incômodo. Goleiros pulam para um dos lados em mais de 93% dos pênaltis. A bola vai para o centro do gol em quase 30% das cobranças. Ficar parado no centro seria, portanto, a estratégia estatisticamente mais eficiente. Mas os goleiros quase nunca ficam.

A razão é mais psicológica do que técnica. Um goleiro que pula e leva o gol foi vencido pelo chutador. Um goleiro que fica parado e leva o gol parece não ter nem tentado. O resultado é idêntico: um a zero. A percepção é completamente diferente. E então o goleiro pula, sempre, mesmo sabendo que as probabilidades estão contra ele.

“A tendência humana de preferir fazer algo a não fazer nada, independentemente de qual das duas escolhas produziria o melhor resultado.”

Os pesquisadores chamaram isso de Action Bias. O viés de ação. A tendência humana de preferir fazer algo a não fazer nada, independentemente de qual das duas escolhas produziria o melhor resultado.

Para aprofundamento sobre o estudo original relacionado ao comportamento dos goleiros em cobranças de pênalti, consulte também a publicação acadêmica sobre action bias entre goleiros profissionais.

O mesmo padrão aparece em toda profissão onde resultados são julgados publicamente. Um técnico de futebol que mantém o mesmo esquema durante uma sequência ruim é chamado de acomodado. Um que muda tudo é chamado de corajoso, mesmo que a mudança piore o time. Na Fórmula 1, construtores trocam pilotos durante temporadas difíceis com uma frequência que a análise posterior raramente justifica. A pressão por movimento é sempre maior do que a evidência de que o movimento vai ajudar. Agir parece competência, enquanto esperar parece omissão.

O investidor brasileiro de 2026 enfrenta exatamente esse dilema. Selic a 15% ao ano, dólar oscilando ao sabor de cada declaração de Washington, ruído geopolítico e o vislumbre de uma Guerra em escala global. A cada semana, uma manchete que parece exigir resposta. A cada mês, um movimento no mercado que parece pedir uma decisão.

Paul Samuelson, primeiro americano a ganhar o Nobel de Economia, disse certa vez que investir se parece muito mais com observar a grama crescer do que jogar em Las Vegas. A frase incomoda porque contraria tudo que o mercado financeiro comunica sobre si mesmo: urgência, oportunidade, movimento. Mas Samuelson estava certo, e o momento atual no Brasil é um exemplo concreto disso.

Agir parece competência, enquanto esperar parece omissão.

O ciclo de corte da Selic que se inicia agora, após um longo período de juros elevados, cria uma oportunidade específica nos títulos atrelados ao IPCA e nos prefixados. Para entender o porquê, é preciso entender o que acontece com esses títulos ao longo do tempo.

Quando um investidor compra um título IPCA+ 7% com vencimento em dez anos, está contratando essa taxa para dez anos. Mas ao longo desse período, o título tem um preço diário que oscila conforme os juros de mercado se movem. Quando os juros caem, o preço do título sobe. Isso é a marcação a mercado: o valor que o título teria se fosse vendido hoje, e não no vencimento. Quem comprou num período de juros altos e carrega o título recebe exatamente o que contratou, e ainda pode se beneficiar da valorização do preço ao longo do caminho. Quem vende antes do vencimento por impaciência ou por medo de uma manchete sai antes de colher o que plantou. É como arrancar uma fruta do galho antes de amadurecer. Não porque a fruta estava ruim. Porque o esperar ficou insuportável.

Leia também:
entenda como a marcação a mercado pode impactar seus investimentos.

“Quem vende antes do vencimento por impaciência ou por medo de uma manchete sai antes de colher o que plantou.”

Marco Aurélio governou Roma por quase duas décadas e enfrentou guerras, pragas e conspirações. Mas o que escreveu em suas Meditações não foi sobre conquistas. Foi sobre contenção. Sobre a disciplina de não agir quando a ação não estava a serviço de nada além da ansiedade. Para o homem mais poderoso do mundo, a maior virtude não era mover exércitos. Era reconhecer quando não os mover.

O custo mais subestimado do viés de ação não é a perda direta, que é fácil de ver e de calcular. É a perda do que teria acontecido se o investidor tivesse ficado. Esse número nunca aparece no extrato. Nunca gera manchete. E é, quase sempre, o maior custo de todos.

“O custo mais subestimado do viés de ação não é a perda direta. É a perda do que teria acontecido se o investidor tivesse ficado.”

O goleiro que pula e defende vira herói. O goleiro que fica no centro e defende fica na obscuridade estatística. Mas ao final de uma temporada inteira, é ele quem deixou entrar menos gols.

Muita gente foca na hora certa de agir. Pouca gente pensa na hora certa de não agir.

“Muita gente foca na hora certa de agir. Pouca gente pensa na hora certa de não agir.”

Deixe um comentário